Despoema Descrevo o verso diverso e confesso palavra descrita desalinhada bendita desfeito sentido fica o tudo restos de um pouco inteiro por definição descabido mal cabe entre tantos rabiscos olho e cisco dão-se as mãos Contínuo desapego desacostumado e tão cedo empresto minha saudade que nunca mais a verei Pela vaidade Devolvo, me envolvo Não sei se é finita alma que grita Subtraída da vida em contos e descontos Atino destino ao que parte e ao que fica Tudo soçobra, sobra desdita
quarta-feira, fevereiro 05, 2014
Palavrar
Apesar delas estarem agora, bem à sua frente, escrevo não para colocar palavras no papel, mas para tirá-las.
Não é fácil tirar as palavras do papel. Ela insistem, persistem e não desistem tão facilmente.
Lutam pelo direito à fixação de sentido às suas inúmeras combinações redacionais. E não poupam esforços para atingir seus objetivos. É preciso muita paciência e perspicácia para convencê-las a saírem do papel, darem uma volta, quem sabe até levantarem voo para além de si mesmas. Isso é muito para elas. Não estão acostumadas a se distanciarem além do território conhecido muito menos levantarem um centímetro além da superfície celulose. Esse “até aqui e não mais além” vai desde muralhas praticamente inexpugnáveis do senso retilíneo até ilusórios círculos de giz dos conceitos, pré-conceitos e pós conceitos.
Persuadir os sentidos anestesiando-os com doses maciças de linhas sub-reptícias é a distração suficiente para se transpor a exatidão do concebido para além do restrito.
Nada é tão sonolento do que o pensamento frequente de que tudo prevalece entre o verdadeiro e o errado.
Enquanto as fronteiras são patrulhadas, escrevo nos intervalos entre as palavras.