Quinta-feira, Fevereiro 09, 2012

É difícil escolher um canto
Um ponto
Que tenha encanto
Verdades são barcos
Silhuetas
que disputam linhas do horizonte
ao poente tão sol

Quinta-feira, Dezembro 22, 2011

MAyall

MAyall não fazia a mínima idéia da distância a ser vencida naquela que seria a sua mais árdua empreitada. Nunca havia passado por uma experiência tal difícil e profunda. O espaço aéreo, sua via natural tão conhecida desde algum tempo após seu nascimento, não mais lhe oferecia o aveludado infinito onde flanar alternava quedas com a liberdade de controlar sua ascensão; O estado de alerta intensificou freneticamente as batidas cardíacas. Coisa que suas auto-consideradas vítimas, ao pressentir sua presença, imaginavam muito bem. Porém as intenções de MAyall não eram outras — e nunca o foram — além de seu talento puro para a caça da única “presa” que julgava importante: o vácuo. Era tudo que MAyall precisava... mergulhar na liberdade do vácuo — ato esse inaceitável tido como a maior tolice já empreendida por quem possua asas para voar. Só que para MYall, suas asas voavam para além da imaginação.

Mas com uma asa apenas, isso ficou impossível. E justamente agora que falta tão pouco para o encontro mais esperado de sua vida. Lá no cimo, à sua espera, estão os seus iguais.

O tempo voava e ninguém passava por ali. A sede lhe dava a sensação de que o sol estivesse na sua garganta. Sabia que seus iguais esperariam até esticar o limite máximo de espera como se o tempo fosse de borracha.

A capacidade da visão turvou-se acelerada pelo suor liberado em cascata por sobre os olhos; a nuca, de base de apoio, passou a ser um peso maior que o pescoço pudesse suportar; a queda era iminente... questão de poucos minutos.

O manto da noite cumpriu fielmente seu dever; as estrelas iniciavam seu lúdico ofício de perfurar o negrume do céu com seu brilho cintilante; a brisa, essa inesperada visitante, velava os intervalos semi-longos da ofegação de MAyall. Um atabalhoado besouro Titanus, no descaso do ato, bateu-lhe a fronte cedendo-lhe graciosamente um quase nocaute técnico.

O bico não fechava mais. E a reserva de esforço, aplicava na sustentação do bico aberto para evitar que colassem... aí seria o fim.
Esmagado pelo medo, jogou-se ao solo de costas. Sua última ação inteligente, supôs. Assim fazendo, evitaria que antes do último alento, lhe fosse impedido de ter como imagem gravada, o cosmos inapelavelmente majestoso nas suas miríades propostas do infinito.

Não se auto-comiserou. Esquecendo-se, perdoou a si mesmo por tudo que fez a si próprio, morrendo primeiro a ilusão de que, o mal que aos outros fizera, foram na verdade ações internalizadas no seu âmbito. Descobriu que o reflexo mata reverberando aos poucos... e corta asas também.

Fechou os olhos mas não o olhar; o que lhe permitiu sentir o corpo elevar-se do solo. Num átimo, percebeu que tentar entender afasta o entendimento. Parou. Algo o movimentou rapidamente.

Uma voz suave o convida abrir os olhos.

Como se estivesse por detrás de um vidro embassado, os borrões semi-coloridos, se aproximavam vagarosamente.

Súbito, não havia mais solo; as estrelas borrifavam luminosidade que lhe refrescava a alma. Os iguais o seguravam alçando-o ao mais alto das alturas.

Sem a necessidade de qualquer expressão através das palavras, soltaram-no em pleno espaço onde não havia em cima e embaixo. Era tudo o que queria; era o seu mais ansiado presente tal qual uma criança anseia pelo mais desejado presente de Natal.

Flutuar na insubstância da liberdade trouxe de volta a asa que lhe faltava. E junto, a felicidade do amor dos iguais.

Domingo, Novembro 27, 2011


As pessoas não andam
Vagueiam no espaço
a procura dos próprios passos
na esperança de encontrar o rumo
deixado por suas pegadas
feitas para despistar
o esmo da pressa inútil


Quinta-feira, Novembro 10, 2011




O brilho dos olhos nada deve ao brilho das estrelas

E elas, co-irmãs, acenam distantes do infinito

Um gesto silencioso, irradia aceno invisível

Eu, mudo, mudo diante do abismo que carrego

dentro de minha pequenez

que em pacientes conta-gotas,

não me deixa piscar

às beiradas de tão vasta imensidão

Sexta-feira, Outubro 07, 2011

Disso que não é.

Sou a parte menos conhecida de mim mesmo. As outras partes complementam o mistério do não saber o que sou (não “quem sou”).

Deram-me um nome após o nascimento. É a única coisa que sobrevive após a morte. No contexto de saber-se o que se é, muito atrapalha ser alguém. Pois acreditamos ser o que dizem que nós somos. Somos uma imagem pintada em uma tela social para agradar — ou desagradar, tanto faz— aos olhos de quem nos vê, inclusive nós mesmos. Desnudar o que está revestido por camadas de condições psico-sociais, é uma ação a nós, totalmente desconhecida. Não sabemos como fazer isso. Pois se o soubéssemos, não seríamos o que somos ou deixaríamos de sê-lo instantaneamente e aquilo que É real, num rompante do mais visceral silêncio, estilhaçaria nossa redoma de vidro na qual pretensiosamente chamamos de meu mundo, com a facilidade de um efeito especial cinematográfico revelando algo que, na verdade, nunca esteve preso, nunca nem ao menos chegou a ser algo.

Se não podemos expressar o que seja esse algo, esse silêncio tatuado na alma, ao menos a linguagem musical — tal qual um Claire de Lune — intenta evocá-lo no anestésica impulso de colher uma impressão relampejante de sua realidade.

É disso que estou de dizendo. Disso que não é. 

Quinta-feira, Setembro 29, 2011

Olhando pela janela da minha memória, revi, tão perto de mim, como se estivesse à distância de um braço, o clarão opaco das cenas restauradas pelo tempo tão relaxado de si. O mundo nunca é o mesmo quando as memórias despertam num repente de surpresa, saindo de uma pandora arquivada em algum recanto da nostalgia. Onde estava a vida quando o motim de minhas lembranças forçavam a tranca dos bloqueios da clareza cristalina ? Estaria ela ocupada demais com o nada, esse espesso fluido do inexplicável, a ponto de ocultar-me a única solidez que os pés de meu entendimento, clamam com sede de conhecimento?

Existirá um dia onde estaremos acima das memórias como um barco que flutua sem deriva, norteado por um horizonte que divide o infinito em fragmentos ainda mais infindos.

Memórias, memórias... ainda mais um pouco e inundarás meu convés com o dilúvio implacável dos registros oceânicos da eternidade. Assim que puder e o tempo deixar, fecharei a janela e o som oco do silêncio, corroerá o último fio da certeza:
sou.
Um algo que admite ser.

Domingo, Setembro 25, 2011

Não somos o que desconhecemos ser em período integral.
Somos o suficiente para um momento fugaz.